Satyro Bilhar
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Satyro Bilhar


Compositor, violonista, pianista e funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil (telegrafista chefe). Nasceu no Crato-CE em 04/04/1860 e faleceu em 23/10/1926, provavelmente no Rio de Janeiro-RJ.

Se existe um personagem “imorrível” na história do violão e da música popular brasileira, esse alguém é, certamente, Satyro Bilhar. Reza a lenda que frequentemente surgiam boatos sobre sua morte: “Morreu o velho Bilhar!!”, sempre desmentidos pessoalmente por ele.

O cearense Satyro (como gostava de ser chamado, e não Sátyro como muitos pronunciam) é uma das figuras mais populares da boemia carioca do final do século XIX e primeiras décadas do século XX. O irreverente violonista era muito querido e respeitado, tendo amizades em todos os níveis da sociedade carioca. Era possível encontrar Satyro nas ruas da antiga capital federal em companhia dos grandes poetas e jornalistas Olavo Bilac e Guimarães Passos, assim como nos choros, ao lado de grandes chorões da época como Quincas Laranjeiras, José Cavaquinho, Galdino Barreto, Juca Kalut, Catulo da Paixão Cearense, dentre outros.

Apesar de imoderado boêmio o violonista era funcionário exemplar, tendo se aposentado sem nunca ter faltado.

Estimado no meio dos chorões, Satyro recebeu muitas homenagem musicais como o choro Tenebroso de Ernesto Nazareth dedicado “ao bom e velho amigo Satyro Bilhar”, com destaque para as “baixarias” que retratam a figura séria e de voz grave e rouca de Bilhar. O maestro Villa-Lobos certa vez afirmou que o movimento fuga de sua Bachiana nº1 “foi composta à maneira de Satyro Bilhar”, já que para o maestro o mais formidável era ‘como’ o violista tocava e não ‘o que’ tocava. Opinião que é compartilhada pelo lendário Donga (Ernesto dos Santos) que lembra em depoimento que: “o som que ele tirava era bonito […], Bilhar era extremamente musical e diferente dos outros. A harmonia dele era muito rica. Eu até fico maluco falando dele”.

Outra curiosidade sobre o músico está relacionada ao seu repertório. No mesmo depoimento ao Museu da Imagem e do Som (MIS), Donga revelou que “seu repertório se resumia a quatro músicas, mas como se desdobravam… Por exemplo: Tira Poeira ele tocava como choro, depois repetia a música como valsa. Ele mudava a harmonia. Dali a pouco tirava uns sons de harpa. Assim ele fazia o baile. Desenvolvia os temas. Com quatro músicas ele acabava com o baile”. Dentre algumas composições conhecidas do violinista estão: Gosto de Ti Por que Gosto, Estudos de Harpa (para violão) e Tu És Uma Estrela, além de sua composição mais conhecida: Tira Poeira.

Donga ainda lembra que Satyro “era engraçadíssimo, fora do comum. Era muito carinhoso. Entrava numa festa, ia direto para a cozinha, procurava a dona da casa e dizia-lhe: A senhora é o sol do Brasil”, possivelmente a fim de garantir fartura nos quitutes que seriam servidos pela anfitriã.

Com muitos amigos, logo reunia muita gente ao seu redor aonde chegasse. Sua leve gagueira aliada a seu sotaque nordestino o tornavam um contador de histórias hilário. As rodas de amigos deleitavam-se com seus causos que sempre vinham acompanhados de um - Minha Nossa Senhora!! (frase preferida do violonista).

O único registro fotográfico de Satyro Bilhar revela sua curiosa aparência (usava um monóculo) e contribui para a construção folclórica em torno de sua figura no meio choro. Jacob do Bandolim eternizou o violonista na história de nossa música com a gravação do choro Tira Poeira, em 1956, que ouviremos a seguir.


Fontes Consultadas

FERNANDES, Antônio Barroso (org.). As Vozes Desassombradas do Museu: Pixinguinha, Donga e João da Baiana — Depoimentos para a posteridade realizados no Museu da Imagem e do Som. Rio de Janeiro: Secretaria de Educação e Cultura, 1970.

MARCONDES, Marcos Antônio. (Ed.). Enciclopédia da música brasileira - erudita, folclórica e popular. São Paulo: Arte Editora/Itaú Cultural, 1977.

PINTO, Alexandre Gonçalves. O Choro — reminiscências dos chorões antigos. 2ª ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1978.

PAES, Anna. “Enciclopédia ilustrada do choro no século XIX”. [sem editora] Programa de Bolsas Rio-Arte, 2004.

Texto escrito por Jamerson Farias